Em avião caindo tem ateu?

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Marina Florentino Garcia (Direito-UFMG)

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marina_florentinoCoisa comum de se ver nas ruas de Belo Horizonte ou de qualquer outra cidade mineira são manifestações públicas, escancaradas e orgulhosas de fé cristã. A essa altura, ninguém estranha que alguém tenha estampado na camiseta um “fé em Deus” ou “só Deus salva”, que carregue ostentosamente uma bíblia (quando não a lê a plenos pulmões dentro de coletivos) ou que se refira a um malfeitor como alguém “sem Deus no coração”. E essas atitudes não só são aceitas, mas são admiradas e incentivadas pelos teístas (quem acredita na existência de um ou mais deuses) como prova de retidão moral.

Isso não seria um problema se essa aceitação e liberdade de expressão se estendesse à todos os posicionamentos religiosos, visto que vivemos em um Estado laico. Infelizmente, o que se tem é um sentimento geral de desaprovação velada a qualquer manifestação religiosa não-cristã. Usar um quipá ou andar de branco às sextas-feiras pode lhe render olhares receosos e tentativas de conversão, embora (e isso é uma considerável conquista) conquanto você tenha uma religião, o cidadão-comum-cristão até te permitirá uma ou outra manifestação de opinião, mas isso para por aqui! Manifestações ateístas não recebem tamanho privilégio. Mas (ó Zeus!) deveriam receber.

Como você imagina que seria recebida uma pessoa na rua vestindo uma camiseta com os dizeres “Tenho fé em Deus”? E agora outra pessoa vestindo um “Eu não acredito em deus” ou “Deus não existe”? Essa segunda, embora seja apenas uma exposição de opinião pessoal tal qual a primeira, é uma situação que muito dificilmente passaria sem vociferações discriminatórias. Mas se teístas podem expor publicamente suas convicções, por que eu não poderia também expor as minhas?

E por que eu também não teria o direito de falar em defesa da minha visão do que é a espiritualidade? Se não devo me ofender ao ouvir que preciso “ter mais fé em Deus” por se tratar de um conselho amigo, dado com boas intenções de me proporcionar felicidade, então o que dá direito a um teísta de franzir-me a testa e se dizer ofendido quando eu, com as mesmas intenções, lhe disser para se libertar da indigna e incrivelmente ingênua ideia de que existe um amigo imaginário, poderoso e invisível, que mora no céu e vigia tudo o que todo mundo faz? Ou lhe aconselhar que não se submeta a uma instituição (e aqui me dirijo especialmente às cristãs) que prega como virtude o satisfazer-se com o não-entendimento?

Ouvi certa vez em uma discussão que os ateus não deveriam ter o direito de defender publicamente sua filosofia por ela não ser uma crença, mas a negação de todas elas, constituindo uma ofensa aos crentes. Bem, existem no mundo mais de 10 mil religiões diferentes e uma prática comum entre elas é negar existência do deus (ou dos deuses) das outras. Cristãos desacreditam o candomblé, o hinduísmo, a cabala, o pastafarianismo, e assim por diante. O xintoísmo faz o mesmo. O judaísmo idem. O ateísmo segue exatamente o mesmo raciocínio, ele apenas nega UMA religião além. Portanto, o argumento de que ateístas não podem se manifestar por ser a negação das outras religiões é um argumento hipócrita.

Os ateístas estão entre os grupos mais duramente repreendidos da sociedade. A intolerância contra esta classe é maior do que aquela contra os homossexuais, os praticantes de Umbanda e outras classes que conhecidamente lutam contra o preconceito, segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu AbramoParte disso pode se dever ao fato de que eles não são propriamente um grupo, não se reúnem frente a uma autoridade centralizadora, como pastores e igrejas, mas são em geral pensadores livres, independentes e dispersos. Isso pode levar à errônea conclusão de que o grupo possui números desprezíveis e que não merece representatividade. Além disso, muitos descrentes não se revelam publicamente por medo de rejeição.

A piada do título deste texto é um exemplo de como essa rejeição e preconceito são práticas comuns, consideradas “inofensivas” quando se apresentam disfarçadas de brincadeiras. Levante a mão o descrente que nunca ouviu um “mas em avião caindo não tem ateu!” ou “em leito de morte não há ateu que não se converta!”. Essas piadas são tão danosas, e propagam uma discriminação tão absurda, quanto as antigas charadas de “quantos pretos são necessários para…”. A diferença é que fazer piadas racistas está estabelecido como crime e tabu (algo do que não se pode ou não se deve falar), enquanto menosprezar ateístas ainda visto como algo inofensivo. A reivindicação não é para que brincadeiras com religião passem a ser também tabus, mas que assim como se brinca livremente com atleticanos e cruzeirenses, possa-se também brincar e criticar livremente todas as posições ideológicas/religiosas. Devemos respeito à pessoas, não à ideias.

E já que meu objetivo aqui é exatamente estabelecer o meu direito de resposta, retruco que, se em avião caindo não tem ateu, em hospital (centro de celebração da ciência e conhecimento humano e da não-fé na cura divina), não tem teísta.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Em avião caindo tem ateu?

  1. Brunello Stancioli

    Interessantes são as tentativas de “encontrar um cristão escondido dentro do ateu”. Várias vezes -até de pessoas próximas – ouvi que, por ser “bom”, eu era católico “por dentro”. Como se eu fosse um cristão que ainda não saiu do armário.

  2. João Paulo Andrade Dias

    Essa entrevista é simbólica.

  3. Maribel Felippe

    Que maravilha a clareza de Bertrand Russell!

  4. Fex

    Os ateus estão entre os grupos mais reprimidos da sociedade? Sério mesmo? Você não riu enquanto escrevia isso?

    Eu não vejo muitas notícias por aí de ateus que foram atacados por fundamentalistas só por estarem de mãos dadas com outro ateu, nem ateus que foram expulsos de lojas ou de gente que muda de calçada quando vê um ateu.

    Não sei que círculos você frequenta, mas conheço muitos ateus, e eles são muito bem aceitos entre os seus. Tentativa de conversão, isso vou ter que concordar com você, é mesmo ridículo. O problema é que não é um problema exclusivo dos ateus; acontece entre crentes – uso “crente” neste texto no sentido original da palavra, não como sinônimo de evangélico – também, mesmo entre aqueles de um mesmo Deus (afinal, presbiterianos, evangélicos e católicos são todos cristãos). Esta é uma característica de toda religião. E, por patético que seja, ainda é mais patético um ateu tentando converter alguém. Argumentar contra atos motivados pela religião é uma coisa, argumentar contra a religião em si até é aceitável (embora inútil), mas missionarismo ateu, por mais que vocês sejam ferozes em defender que não é o que estão fazendo, é um oximoro que atenta contra a inteligência que ostentam.

    Sim, porque ateus também são classistas. Vocês são minoria, então o efeito não é tão percebido quanto a reação oposta, mas a maioria dos ateus tende a tratar os crentes com condescendência, como se aos últimos faltasse algum tipo de esclarecimento ou capacidade mental. E eu sinto dizer, mas a proporção de ateus estúpidos é exatamente a mesma dos crentes estúpidos.

    Seu texto está há pelo menos duzentos anos atrasado. Eu, embora creia em Deus, não tenho religião e costumo concatenar melhor com os argumentos de moral dos ateus do que com os dos crentes, simplesmente porque ateus tendem a seguir uma filosofia de vida mais voltada pela lógica e pela reflexão e menos pelo dogma. Isso faz com que eu seja tão alvo de desconfiança e tentativas de conversão quanto os ateus, exceto que eu ainda tenho que ficar explicando como posso não ter religião não sendo ateu. Mas não se iluda: dogmatismo é uma característica humana, e eu conheço cientistas muito capazes que são tão aferrados a certas mentalidades e teorias quanto qualquer testemunha de Jeová, totalmente impermeáveis à argumentação. E essa sua afirmação é um destes dogmas, que só pode ter vindo de uma total falta de reflexão ou empatia, ou simplesmente falta de informação quanto ao mundo ao seu redor.

    E a pior parte: muita coisa muito válida dos seu texto perde o valor argumentativo quando se coloca este prisma sobre a visão do escritor.

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