O cinema é a forma mais direta de competir com Deus

.

Victor Ávila – Direito/UFMG

.

images (1)    Federico Fellini, criador da frase do título, percebeu o poder que o cinema tinha de representar a realidade. Não apenas de uma forma superficial, mas de uma maneira quase brutal, perversa em algumas ocasiões. Afinal, a realidade é assim mesmo. Fellini teve seu auge na década de 1960. Desde então, difundiu-se pelo mundo, de maneira quase viral, os ideais do politicamente correto, da primazia da moral, e tais cobranças sociais recaíram também no âmbito artístico.

                                                                                                                                                              Sempre se discutiu qual era, e se havia, o limite para as produções cinematográficas, no que diz respeito a cenas eticamente questionáveis. Em alguns casos, pela extrema violência que apresentam, em outros por cenas cujo teor sexual ultrapassa os limites estabelecidos pela sociedade, ou ainda porque são consideradas ofensivas e violadoras de direitos humanos. Tais grupos acusam esse tipo de produção de incitar a violência, a banalização do sexo, o preconceito. O que, inevitavelmente, leva à pergunta: é correto a indústria cinematográfica se utilizar de imagens fortes e chocantes como forma de expressão artística? Qual é o limite da liberdade de expressão e da ética no cinema?

Essa discussão é, na verdade, muito antiga. Em 1992, Roger Mahoney, Cardeal da Igreja Católica de Los Angeles, iniciou uma campanha contra o cinema, alegando que a indústria era “uma agressão aos valores defendidos pela vasta maioria das pessoas na sociedade americana” e que ela não poderia continuar a “se esconder atrás de uma falsa necessidade de liberdade de expressão.”

O discurso de Mahoney, no entanto, não era novidade em Hollywood. Em 1930, outro católico, o padre Daniel Lord estava convencido de que o cinema estava destinado a corromper os valores morais americanos. Ele, então, escreveu um código de produção cinematográfica que logo foi adotado pelos grandes estúdios. Conhecido como Código Lord, a nova regulamentação vigorou até 1966, quando foi substituída pelos atuais sistemas de restrição etária. Tal código proibia que os filmes exaltassem criminosos, gangsters, adúlteros e prostitutas. Vetava também nudez, violência excessiva, drogas ilegais, entres outros. Tudo isso na chamada “era de ouro” do cinema americano, quando imperavam as grandes produções em estúdios. Uma época na qual o cinema era voltado mais para o lucro do que para a arte. Manter as audiências era o maior objetivo.

Após a derrubada do Código Lord, os chamados filmes de arte ganharam mais espaço. Começaram a surgir produções que não seriam aceitas alguns anos antes. Veio a violência sem precedentes de Laranja Mecânica (1971), a nudez e a sexualidade pulsante de O Último Tango em Paris (1972) e o terror ousado e chocante de O Exorcista (1973). O público adorava. O cinema, então, começou a tomar forma como representação máxima da realidade no âmbito da arte. Dessa forma, a presença, nos filmes, de cenas provocantes e polêmicas só aumentou, o que levou a protestos como os do cardeal Mahoney, que tenta levar Hollywood de volta aos tempos de censura. Entretanto, os ideais atuais de liberdade de expressão não tolerariam esse tipo de medida. O apelo do cardeal se mostrou, no final, infrutífero.

É claro que a opinião de Mahoney não é um caso isolado. Recentemente, diversos filmes foram duramente atacados pelas cenas fortes, ofensivas ou que fazem apologias explícitas a drogas, sexo, violência e outros tabus sociais.

Drogas, um assunto recorrente em todos os cantos do planeta, é constantemente explorado no cinema. Algumas vezes de forma tão intensa que os filmes são acusados de fazer apologia ao consumo de drogas. É o caso, por exemplo, de Trainspotting (1996), que mostra a vida de jovens escoceses imersos no mundo da heroína. Quem não se lembra da overdose da personagem de Uma Thurman em Pulp Fiction? Brutal e agoniante, porém, real. Essas cenas estimulam, desestimulam ou apenas retratam o uso de drogas? É melhor proibi-las?

Diversos filmes exploram a temática do sexo e a retratam de forma violenta ou polêmica e, claro, geram inúmeros protestos. Nesse quesito, é possível citar Irreversível (2002), que mostra uma das cenas de estupro mais longas e realistas do cinema; Gritos e Sussuros (1972), de Ingmar Berman, que inovou ao retratar a homossexualidade das personagens sem nenhum pudor e o já citado O Último Tango em Paris (1972), que conta a história de “Ele” e “Ela”, dois personagens que não se importam com o nome um do outro e se entregam ao sexo.

A violência excessiva é outro tópico relevante que gera indignação em muitos espectadores. É o caso de filmes como Assassinos Por Natureza (1994), acusado de promover a banalização da criminalidade, e de Tropa de Elite (2007) acusado de justificar a violência policial

Há também, é claro, filmes que recebem duros protestos e boicotes da instituição que, na década de 30, censurava o cinema: a Igreja Católica. O Código da Vinci (2006), por sua temática bem polêmica e A Paixão de Cristo (2004), pela violência e realismo das últimas horas de Jesus, são alguns exemplos.

Enfim, há algo de errado em produções chocantes, com cenas polêmicas e controversas? Ou, na verdade, é o politicamente correto que está tornando o mundo mais “chato”? A segunda opção parece bem mais plausível. Afinal, é impossível fazer cinema inteligente sem temas que desafiem e provoquem o espectador. O cinema inteligente é o cinema que não apenas desafia e provoca, mas constrange, choca, enoja e gera revolta. Toda cena polêmica pode, sim, ser encarada sob outro ângulo. A função do cinema é, mais do que entreter, fazer refletir. E para que esse objetivo seja atingido, o cinema deve se expressar da forma que toda arte deve ser: livre. Aqueles que, ao entrar numa sala de cinema, enxergam falta de ética são pessoas inaptas a ver o mundo através de uma câmera. Pois o que o cinema faz é exatamente isso: nos conta como é o mundo em que vivemos, mesmo que, para isso, tenha que “competir com Deus.”

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

2 Respostas para “O cinema é a forma mais direta de competir com Deus

  1. celso

    “Afinal, é impossível fazer cinema inteligente sem temas que desafiem e provoquem o espectador. O cinema inteligente é o cinema que não apenas desafia e provoca, mas constrange, choca, enoja e gera revolta.” Essa conclusão forte num me parece embasada em nenhum argumento convincente. Se for por contra-exemplo posso dizer que meus filmes preferidos não me desafiam, nem provocam nem enojam… sei lá, penso no YiYi do Edward Yung. Pra mim filme violento é tipo brigadeiro. A gente adora violência como adora açúcar, e, como hj tem recurso pra fazer estas bombas de açúcar e violência de maneira bem acessível a indústria de massa, cultural e alimentícia, se aproveita da nossa fraqueza. Não defendo a censura mas acho que o excesso acaba gerando mais mal do que bem… Se deve haver cobrança é por parte dos realizadores que deveriam estar conscientes do seu papel e usar estes recursos com parcimônia, fazer um doce de figo ao invés de um brigadeiro, uma última tentação de cristo ao invés de uma paixão de cristo…

  2. Ana

    A maioria dos filmes que assistimos e nos interessamos despertam emoções em nós. E é exatamente por isso que ele se tornam atrativos e nos interessam. A conclusão não é forte, é real. Despertar emoções ou sentimento de desafio, nojo ou qualquer um dos citados, não significa segui-los ou concretizá-los. Um filme sobre violência que interesse a alguém, não significa que essa pessoa vai praticar atos de violência. Esses filmes despertam sentimentos e nos levam a abandonar nossa posição de conforto. Eles nos fazem pensar e refletir sobre diversos assuntos, principalmente com relação a sociedade.

O que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s